
Quando pensamos na saúde de cães e gatos, é comum lembrar das vacinas, da alimentação, dos exames de rotina e dos cuidados com o peso. Mas existe uma parte do organismo que ainda recebe menos atenção do que deveria: a boca.
A doença periodontal está entre os problemas mais comuns em cães e gatos e pode começar de maneira silenciosa. A placa bacteriana se acumula sobre os dentes, a gengiva fica inflamada e, com a progressão da doença, as estruturas que sustentam os dentes podem ser destruídas. O problema não fica, necessariamente, restrito à boca: a inflamação crônica e os componentes produzidos pelas bactérias podem ter repercussões em todo o organismo.
O que a doença periodontal tem a ver com a corrente sanguínea?
A boca é, naturalmente, habitada por uma grande quantidade de microrganismos. Em uma boca saudável, existe um equilíbrio entre esses microrganismos e os tecidos do animal. Quando a placa bacteriana se acumula e a doença periodontal se instala, esse equilíbrio é alterado.
A inflamação provoca alterações na gengiva e nos tecidos que sustentam os dentes. Em situações como gengivite e periodontite, especialmente quando existe sangramento e inflamação, componentes bacterianos e mediadores inflamatórios podem alcançar a circulação. A partir daí, podem ocorrer respostas inflamatórias em outras partes do organismo.

É importante, porém, evitar uma simplificação: não significa que as bactérias da boca necessariamente vão “viajar pelo sangue” e provocar uma infecção em determinado órgão. A relação entre doença periodontal e doenças sistêmicas é complexa, e nem sempre é possível estabelecer uma relação direta de causa e efeito. O que já é reconhecido é que a inflamação periodontal pode produzir efeitos sistêmicos e que a saúde bucal está relacionada à saúde geral e à qualidade de vida do animal.
Quais problemas podem estar relacionados à doença bucal?
A doença periodontal não deve ser tratada apenas como um problema estético. Além de provocar dor, sangramento, mau hálito, perda de dentes e dificuldade para se alimentar, a inflamação crônica pode representar uma carga adicional para o organismo.
Entre as alterações sistêmicas que vêm sendo estudadas em associação com a doença periodontal estão problemas que envolvem:
- Coração e sistema cardiovascular: componentes bacterianos e mediadores inflamatórios provenientes de tecidos periodontais podem alcançar a circulação e contribuir para processos inflamatórios sistêmicos.
- Rins: doenças periodontais e alterações renais podem coexistir, especialmente em pacientes idosos, embora isso não signifique que uma doença periodontal seja, isoladamente, a causa de uma doença renal.
- Fígado: o fígado participa do processamento de substâncias e mediadores provenientes da circulação, e alterações inflamatórias sistêmicas podem ter repercussões nesse órgão.
- Sistema imunológico: a presença contínua de inflamação representa um estímulo persistente para o organismo.
- Saúde geral e qualidade de vida: dor crônica, dificuldade para comer e inflamação podem alterar comportamento, alimentação e bem-estar.
A literatura veterinária reconhece essa relação entre saúde periodontal e saúde sistêmica, mas recomenda cautela ao estabelecer causalidade direta entre doença periodontal e uma doença específica em outro órgão.
O problema pode estar avançado mesmo sem sinais evidentes
Um dos grandes desafios da Odontologia Veterinária é que cães e gatos costumam esconder sinais de dor. Um animal pode continuar comendo, brincando e interagindo normalmente mesmo apresentando uma doença bucal importante.
Além disso, boa parte da estrutura dos dentes fica abaixo da gengiva. Por isso, uma avaliação visual simples não consegue identificar todas as alterações.Diretrizes internacionais destacam que a avaliação odontológica completa, incluindo radiografias intraorais quando indicadas, é fundamental para identificar alterações que podem não ser aparentes durante um exame superficial.
O mau hálito também merece atenção. Embora muitas pessoas considerem o “bafo” algo normal em cães e gatos, o mau hálito persistente pode ser um dos primeiros sinais percebidos pelos tutores em pacientes com doença periodontal.
Por que a prevenção é tão importante?
A prevenção começa antes que o animal apresente dor.
A higiene oral em casa, especialmente a escovação quando adequadamente introduzida e realizada, ajuda a controlar a placa bacteriana. Porém, ela não substitui as avaliações odontológicas periódicas. A necessidade e a frequência dos procedimentos profissionais variam de acordo com idade, porte, raça, anatomia oral, histórico e condição periodontal de cada paciente.
A avaliação odontológica permite identificar precocemente alterações como gengivite, periodontite, dentes fraturados, reabsorções dentárias, dentes decíduos persistentes e outras doenças da cavidade oral.
Quando existe doença periodontal, o tratamento adequado pode envolver avaliação completa, radiografias intraorais, remoção de placa e cálculo, tratamento periodontal, extrações ou outros procedimentos, dependendo do diagnóstico. O objetivo não é simplesmente deixar os dentes brancos: é eliminar ou controlar a doença, aliviar a dor e preservar a saúde bucal e a qualidade de vida do paciente.
Saúde bucal também é medicina preventiva
A Organização Mundial de Saúde Animal de Pequenos Animais (WSAVA) destaca que as doenças orais e dentárias estão entre as condições médicas mais comuns dos animais de companhia e reforça a importância da prevenção, do diagnóstico e do tratamento odontológico adequado.
Por isso, a boca não deve ser vista como uma parte isolada do organismo. Cuidar da saúde bucal é cuidar do animal como um todo.
Não espere o pet parar de comer, apresentar inchaço no rosto ou demonstrar dor para procurar atendimento. Alterações odontológicas podem evoluir silenciosamente durante muito tempo.
Uma avaliação odontológica periódica, associada à prevenção em casa e ao tratamento adequado quando necessário, é uma das formas mais importantes de proteger cães e gatos contra dor, perda dentária, infecções e as possíveis repercussões sistêmicas associadas à inflamação periodontal.